terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Futebol Arte

O futebol prá mim evoluiu às avessas, ou seja, andou prá trás. Feito caranguejo. Está mais violento, mais corrido, mais feio de se ver. O que acontece dentro da área hoje, numa cobrança de escanteio, é a coisa mais deprimente que eu já vi. É zagueiro dando gravata em atacante, é atacante correndo dum lado pro outro prá fugir do zagueiro, é juiz distribuindo cartões amarelos ameaçando os jogadores pelas suas condutas indecorosas. Olha, é uma coisa horrível. Pode ser tudo, menos futebol. Os zagueiros da minha época, como o chileno Elias Figueroa, o paraguaio Reyes, Luisinho, Oscar, marcavam e desarmavam o atacante sem encostar neles. Era sensacional !

Na década de sessenta, século passado, quando comecei a jogar e me interessar pelo futebol, ele era jogado mais cadenciado. Era muito mais bonito.Tinha mais poesia, mais arte, mais jogadas maravilhosas. Tinha ponta, tabelinhas, lançamentos. Apesar de o campo ser do mesmo tamanho, o jogador tinha mais espaço e mais tempo para raciocinar, para criar as jogadas.

Antigamente o objetivo era fazer gols. Hoje é não sofrer gols. Quando o futebol foi inventado pelos ingleses, jogava-se com dois zagueiros, três jogadores no meio-campo e cinco atacantes. Não peguei essa época. Mas me lembro bem do quatro-dois-quatro. Vocês podem até não acreditar, mas os times eram formados assim: goleiro, lateral-direito, beque central, quarto zagueiro e lateral esquerdo; meia de ligação e meia direita; ponta direita, centro-avante, meia esquerda e ponta esquerda. Tinha ponta-direita e ponta-esquerda e jogavam na ponta mesmo. Era espetacular !


A partir da copa de setenta, o Zagalo pegou o Rivelino que deveria ser ponta-esquerda, e recuou para o meio campo. Começou o esquema 4-3-3, depois veio o 4-4-2 e daí prá frente, estragou tudo.

Quem não viu o Pelé jogar, por erxemplo, não sabe o que é futebol arte. Não adianta nem tentar explicar. Só prá vocês imaginarem; no auge da sua maturidade, na copa de setenta, já aos trinta anos, as três jogadas mais sensacionais que ele fez, não resultaram em gols: foi um chute do meio campo contra a Tchecoeslováquia, uma cabeçada contra a Inglaterra(considerada uma das maiores defesas da história do futebol do goleiro Gordon Banks) e um corta-luz no goleiro Mazurkiewski do Uruguai.


Gostaria de ter visto jogar, outras lendas do futebol: Domingos da Guia, Heleno de Freitas, Zizinho, Didi, Nilton Santos, o argentino Alfredo Di Stéfano e o húngaro Ferenc Puskas .


Mas vi: Garrincha, Gérson, Zico, Falcão, Tostão, Rivelino, Platini, Beckenbauer e Maradona. Me arrisco até Romário e Zinedine Zidane. Daí prá frente, os que são considerados craques hoje, como: Ronaldo fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Messi, Cristiano Ronaldo, já são vítimas desse futebol moderno.

Zagueiro e goleiro hoje, têm que ser gigantes. Um cara de estatura mediana não consegue mais jogar futebol. É brincadeira !!! é condicionamento físico, é massa muscular, os caras viraram robôs. O Cláudio Coutinho, preparador físico da seleção de setenta e depois técnico do flamengo daquele timaço que foi campeão do mundo, dizia que, com os jogadores cada vez mais preparados fisicamente, no futuro ou se teria que aumentar as dimensões do campo, ou diminuir a quantidade de jogadores.
E o pior, é que ele estava certo !!!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O Casamento do Rique

Eu sempre fui apaixonado por futebol. Desde criança adorava as famosas "peladas". No quintal de casa, na rua, nos campinhos de várzea, nos clubes.

O tempo vai passando, viramos adulto (que pena !!!) ; compromissos, responsabilidades, trabalho, casamento, filhos, a dedicação ao futebol vai diminuindo, mas a paixão, não !

Às quartas-feiras à noite e aos sábados à tarde, as "peladinhas eram sagradas" na AABB. Os filhos vão crescendo, começam a nos acompanhar. Consequentemente vamos ficando velhos; não dá mais para competir com a rapaziada, começamos a nos dedicar à garotada.
Formamos uma escolinha de futebol. Nessa época que o meu relacionamento com o Rique foi se estreitando. Trabalhava com o pai dele no Banco do Brasil, e aos domingos de manhã nos reuníamos para jogarmos o nosso futebol. Eu ,Rique, Pascoal, os meus filhos e outros garotos que recrutávamos para completarmos os dois times da nossa escolinha.

O tempo passou. As crianças cresceram, foi um para cada lado, eu me aposentei e hoje o Rique aparece aqui em casa com a sua noiva, me convidando muito carinhosamente para que eu realizasse o seu casamento.

O Rique é simpatizante do espiritismo. Foi algumas vezes às explanações doutrinárias na casa espírita em que participamos.

Aí eu disse prá ele: - veja bem, Rique. O espiritismo é uma doutrina filosófica, científica e religiosa. É uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal", como definiu o próprio de Kardec.

Todavia não é uma religião formalizada, visto que não cultos, nem ritos, nem hierarquia e nem cerimônias. Teve o seu início em Paris, na França, em 1857 e foi codificada por Allan Kardec. Ele não criou nem fundou o espiritismo e deixou bem claro que os ensinamentos são dos espíritos. Por isso que não existe espiritismo de umbanda, espiritismo de mesa, baixo espiritismo e espiritismo kardecista. Existe espiritismo, e só. Inclusive as palavras espírita e espiritismo foram criadas por Kardec. O que foge à codificação não é espiritismo.

Mas voltando ao casório, informei ao Rique que não existe cerimônia de casamento no espiritismo, senão daqui a pouco as pessoas vão espalhar por aí que o Gilberto está realizando casamentos espíritas, e prá eu explicar isso depois, como é que vai ser?

Contudo, nada impede que nos reunamos e oremos pela felicidade do Luiz Henrique e da Natália. E assim o fizemos. Que o nosso Pai Maior os ilumine e os proteja nessa nova etapa de suas caminhadas.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Coisas sérias pro futuro

Desde pequeno sempre gostei de tentar escrever alguma para que algum dia, além de mim, alguém lêsse. Jornal do colégio, jornal do trabalho, jornal da casa espírita. Qualquer coisa que acontecia era motivo para escrever. Eram folhas soltas que iam ficando pela vida. Nunca cheguei a escrever um livro, mas escrevi várias apostilas.

Se você é uma pessoa de bem, ao ter filhos, consequentemente quererá que eles sejam pessoas melhores que você.

Ao educar meus filhos, procurei dar a eles o melhor que pude na parte intelectual, nos valores morais e espirituais e naturalmente eles sempre copiam alguns dos nossos gostos. A minha filha caçula por exemplo, a Luciana, é flamengo de coração, ama Chico Buarque e graças a Deus, escreve muito melhor do que eu. Confiram: http://www.sobrescrita.blogspot.com/ .

É extremamente gratificante para nós, pais, ao vermos nossos filhos adultos e independentes, apesar de sentirmos uma imensa saudade de quando eles eram pequenos e permaneciam sob o nosso controle, saber que tivemos uma pequena participação na formação deles, contribuindo no desenvolvimento de suas potencialidades e no meu caso em especial, reconhecer que eles se encontram algumas léguas à minha frente no nosso caminho evolutivo.

Mas voltando às minhas escreveduras, elas tenderam sempre para causos, histórias, besteiras, coisas alegres e engraçadas, que quase sempre aconteciam e que eu buscava colocá-las no papel.

De tristeza e coisa ruim, já bastam os noticiários. Mas, claro, existem assuntos sérios e relevantes que merecem ser tratados com responsabilidade, e que devemos escrever sobre eles.

Portanto, prometo a vocês, pro futuro, escrever também sobre coisas sérias.

Até mais.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Perder um amigo

Hoje, vinte e dois de novembro de dois mil e nove, teoricamente, deveria ser um dia triste para mim. Morreu um grande amigo meu.

Costumamos colocar dessa forma, quando morre alguém, especialmente familiares ou amigos: "perdemos".

Eu também pensava assim até conhecer a doutrina espírita. Hoje vejo de outra maneira. Aprendi que a nossa essência é imortal, somos eternos. A morte física é apenas uma passagem para outro plano da vida. Aprendi também, que estamos sempre caminhanho para o nosso aperfeiçoamento, para a nossa felicidade e chegaremos todos lá, sem excessão, mais cedo ou mais tarde, de acordo com o esforço e a determinação de cada um.

Por isso que não fiquei triste com a morte do Mário. Tenho certeza absoluta de que ele cumpriu a sua tarefa terrena e em breve nos encontraremos em outras etapas a caminho da nossa evolução.

Trabalhamos juntos no Banco do Brasil. Pessoa fantástica, o Mário. Temperamento difícil, gênio indomável mas sempre alegre, um senso de humor extraordinário, um grande coração, mestre nos trocadilhos e em colocar apelidos, exigente com as suas amizades; sinto-me honrado de fazer parte do seu seleto grupo de amigos .

Caráter irretocável, viveu para o seu trabalho e para sua familia, certamente deixou um grande exemplo de vida para todos nós .

Agora, as histórias que aconteceram com o Mário foram únicas em todo esse universo. Aconteceram somente com ele. Histórias realmente fantásticas, quase inacreditáveis, algumas das quais tive a satisfação de testemunhar. Em breve contaremos algumas delas em nosso blog e vocês vão se deliciar.

Aqui vai uma bem curtinha só pra que vocês tenham uma idéia: uma vez ele foi desapartar uma briga. O Mário era alto, forte, um corpo avantajado de atleta. Foi um grande jogador de basquete na sua juventude. Ele abraçou o brigão pelas costas, enlaçando os braços pela sua barriga e trançando os dedos. O cara era meio gordo e conforme o Mário apertava e tentava retirá-lo da confusão, o camarada foi ficando sem ar, com dificuldade para respirar e falou pro Mário: - meu amigo, por favor me solta. Você está apertando muito a minha barriga e eu não estou conseguindo respirar . Ao que o Mário respondeu: -eu estou tentando, mas os meus dedos prenderam aqui cruzados e eu não consigo soltá-lo. O cara foi ficando nervoso e sem ar , o Mário também, porque queria soltá-lo e não conseguia, até que finalmente a turma-do-deixa-disso, conseguiu entender e ajudou a desfazer o mal entendido. Conclusão: acabou a briga, o cara quase morreu porque não conseguia respirar e o Mário todo sem jeito pela confusão que ele arrumou na tentativa de ajudar.

Querido amigo e irmão: obrigado pelos momentos alegres em que estivemos juntos. Que Deus ilumine sempre a sua trajetória à caminho da perfeição. Em breve nos reencontraremos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O sagrado direito do voto

Era final de julho. Um frio danado como há muito tempo não fazia em Friburgo. Já era noite e eu estava na cozinha fazendo meu lanche - café, pão fresquinho com manteiga e queijo minas - e pensando na vida, com aquelas reflexões de um recém-aposentado: será que fiz bem em me aposentar ? sou muito velho pra trabalhar muito, mas sou muito novo pra trabalhar nada; todo mundo trabalhando e eu aqui à toa; arranjo emprego, não arranjo . . . quando a porta da cozinha abriu de repente. Era gordinha.
- Vou votar em Cacau Rezende ! - exclama ela, entrando esbaforida e arriando a bolsa junto à pia. Levei um susto e não entendi nada. Primeiro porque eu nunca tinha ouvido falar em Cacau Rezende e segundo porque o candidato dela era o Dr. Balbi. Trabalhou com ele quando era solteira, só vivia elogiando o seu trabalho e só votava nele em todas as eleições.
Chegou do salão àquela hora e enquanto preparava o jantar ia contando a história da velhinha, de quem havia cortado o cabelo e que a tinha convencido a votar em Cacau Rezende. Era a mãe dele. Velhinha esperta aquela, porque convencer um membro do clã dos “Oliveiras” a votar em seu filho, que era candidato a vereador, num curtíssimo tempo de um corte de cabelo ? Velhinha danada mesmo! Certamente possuidora de uma forte argumentação e um grande poder de persuadir as pessoas.
Durante os dois meses que precederam as eleições, o ouvido aqui do pobre cristão sofreu, com o nome do Cacau sendo exaltado, enaltecido e vangloriado periodicamente. E nesta época é praticamente impossível não se falar em candidatos e eleições. É horário eleitoral, é santinho pra todo lado, é carro de som na rua, é cara de candidato sorrindo pra você em todo lugar que você vai... enfim, não tem jeito, querendo ou não, você tem que participar.
E lá em casa não foi diferente. Saía assunto de eleição e lá vinha ela com Cacau Rezende. Vira e mexe e tome Cacau Rezende.
Mas Deus é pai, não é padrasto, e finalmente chegou o dia três de outubro de dois mil e quatro. Faltando uns quarenta minutos para encerrar o prazo de votação, passo pela varanda e vejo Gordinha, na posição que Napoleão perdeu a guerra, revirando a lata de lixo. Perguntei espantado:
- O que foi Gordinha. Tá procurando o quê ? E ela: - O santinho do Dr. Balbi. Aí perguntei mais assustado ainda:
- Ué, mas não era Cacau Rezende ? E ela de novo: - Minha consciência doeu. Vou votar no Dr. Balbi mesmo.
Pegou a bolsa, o santinho do Dr. Balbi no lixo, a sombrinha e saiu correndo, ladeira abaixo, para exercer o inalienável direito de todo cidadão de cumprir seu dever cívico e sufragar o seu voto.
Lá pela noitinha, chega ela, triste, cabisbaixa, com aquela cara de cachorro que quebrou panela.
- “Sacanás , anulei o meu voto. Também aquela porcaria de máquina!!!" Deixei passar um tempinho, esperei a moça acalmar e perguntei:
- Mas como é que você conseguiu anular seu voto, Gordinha? . É tão fácil aquela maquininha. Você chega, aparece logo aqueles cinco quadrinhos; você coloca o número do vereador, aparece a cara dele. Você confirma e pronto. Pra prefeito a mesma coisa.
- O quê? primeiro é vereador, pergunta ela arregalando os olhos. Eu votei primeiro prá prefeito. Aí, pensei cá com meus botões: porcaria de máquina, heim, fez foi lambança mesmo!
Final da história: Nem Cacau nem Dr. Balbi. Votou mesmo só pra prefeito. E ainda por cima perdeu o voto, porque votou em Renato.
Friburgo, outubro de 2004.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Par de jarras

Vinha eu outro dia, Alberto Braune abaixo, comendo as minhas goiabinhas, como diria o Stanislaw, quando deparei com um casal de mãos dadas, descendo à minha frente, um tanto o quanto diferente.
Explico porque: desciam à minha frente, na mesma direção, portanto, eu os olhava por trás. Diferente, porque pareciam do mesmo sexo, masculino. Não é que eu seja preconceituoso, mas o que chamou mais a minha atenção era o corte de cabelo. Aparentavam ter mais ou menos sessenta anos, ainda analisando de costas. Cabelos grisalhos, assim como os meus, e o mais interessante - tanto a cor dos cabelos quanto o corte eram idênticos. Certamente iam ao mesmo barbeiro a solicitavam o mesmo corte, assim como eu fazia com as crianças lá de casa quando eram pequenas. Coitada, a Luciana é que ficava no prejuízo. Mas era pra ganhar tempo, facilitar a vida do Degalino (o barbeiro) e ficar mais barato.
Continuei andando; estávamos mais ou menos com o mesmo passo, eu e o estranho casal, e de vez em quando eu dava uma discreta olhadinha. Vestiam calça comprida, umas camisas parecidas, um jeito semelhante de andar. Mas o que mais me impressionava era realmente o cabelo. Igualzinho !!!
Segui a minha trajetória em direção ao Banco do Brasil, onde iria pagar umas contas, me distraí e esqueci do intrigante casal. Mas o cabelo (lá deles) não me saía da cabeça. Igualzinho mesmo.
Paguei as minhas contas, e na volta, parei no “grão café” para saborear aquele delicioso café expresso e, qual não foi a minha surpresa, ao chegar e sentar à uma mesa, justamente na mesa em frente, o estranho casal, agora de frente. Só aí é que eu vi que não era um casal masculino, e sim um homem e uma mulher, e por sinal muito bonita e muito bem maquiada. Fiquei surpreso, porque raramente hoje em dia se vê uma senhora que não pinte os cabelos, quando estes começam a ficar brancos.
Enquanto sorvia o meu café, matutava com os meus botões. Quando chegar em casa, vou falar com Gordinha se ela não quer parar de pintar os cabelos e cortar igual ao meu. Ia ficar um casalzinho legal, igual àquele que me chamou tanto a atenção - e olha que eu sou meio distraído, não sou muito de reparar as coisas e as pessoas, não.
Cheguei em casa e fiz a proposta indecente. E ainda por cima levantei uma porção de argumentos pra justificar o meu pedido. Vocês não queiram imaginar a reação da patroa. A mulher ficou brava e saiu cuspindo marimbondo. Nunca mais toquei no assunto.
Mas que ia ficar um casalzinho maneiro, lá isso ia. . .


Friburgo, abril de 2009.

Terceira idade

Eu tenho um amigo, colega aposentado do Banco do Brasil, Mário Fróes, que tem uma classificação interessante para a velhice. Diz ele: dos sessenta aos setenta – terceira idade; dos setenta aos oitenta – quarta moléstia; e dos oitenta para cima – quinta dos infernos.
E ele não tá muito errado não. Eu por exemplo, não tô gostando nada de ficar velho. É complicado. Vou explicar , pra vocês entenderem direitinho.
Quando eu era jovem, por exemplo; trabalhava, estudava, dava um duro danado durante a semana, chegava sábado jogava “pelada” a tarde toda, ficava todo arrebentado, passava a noite em claro segurando criança gripada, domingo tirava uma soneca à tarde, segunda-feira de manhã tava novinho para trabalhar novamente.
Agora, depois que a gente faz cinqüenta anos, primeira decepção: tive que pendurar a minha chuteira - é triste, viu ? Veja bem: a cabeça sabe o que fazer, mas o corpo já não responde como antigamente. E eu tenho um nome a zelar, não posso fazer igual ao Romário fazendo vergonha depois de velho. Melhor parar. Mas o pior são as doenças; não tenho nada grave, graças a Deus, mas em compensação tudo o que não é grave, eu estou adquirindo. Quer ver só ?
Próstata aumentada: já estou a quase dez anos nessa agonia. O médico diz: nada pra se preocupar, por enquanto. Mas não se esqueça, exame rigorosamente de seis em seis meses, e lá vou eu. Hérnia de disco: vou ao ortopedista, pede os exames, manda para o fisioterapeuta, volto ao ortopedista, melhorou ? quanto ? sessenta por cento. Volto para o fisioterapeuta, e lá vou eu de novo. E não sai disso.
E tem mais: herpes, labirintite, alergia respiratória – que eu peguei na obra lá do centro. O pneumologista disse: não é nada grave, diminui só um pouquinho a capacidade pulmonar, mas não se esqueça, de seis em seis meses você volta aqui prá gente fazer o acompanhamento. Varizes, colesterol alto, enxaqueca, nervo ciático. Essas são as que eu tô lembrando agora enquanto escrevo isto.
E os médicos recomendam: evite gordura, açúcar, café, chocolate, coca-cola, massas, um chopinho bem gelado com colarinho. É mole ??? Eles nunca mandam evitar jiló, berinjela, espinafre.
E o pior de tudo isso é o seguinte: quando a gente é jovem, as doenças vêm e vão embora daqui a pouco, mas quando a gente vai ficando velho, elas vêm e não vão embora nunca mais. E você tem que aprender a administrar isso.
Portanto, meus amigos, evitem ficar velhos.

Parabéns, Conchita!

Às vezes, vou ao Rio de ônibus. A gente vai ficando velho, vai perdendo a vontade de dirigir. E eu gosto de viajar de ônibus, mais tranqüilo, menos desgastante - esse trânsito tá um horror. Outra vantagem: ônibus têm conforto, espaço, ar condicionado, banheiro (a próstata agradece) e, o mais importante, eles são altos e com as janelas todas de vidro, dando uma visão panorâmica fantástica aos passageiros, que, como eu, gostam de viajar observando a paisagem.
Fui à cidade maravilhosa passar o final de semana com a moçada e voltei hoje para Friburgo. Peguei o ônibus no Castelo às dezesseis e quarenta, poltrona número dezenove (janela) e fui, para meu deleite, sem ninguém ao meu lado - até a rodoviária. Para quem é tímido e não gosta de falar muito, é gostoso viajar assim, sozinho na poltrona, à vontade, pensando na vida.
Apesar de o trajeto já ser bastante conhecido, o sol se pondo ao entardecer, quando o ônibus inicia a subida pelo elevado do Caju, é bonito; ver a ponte cortando a baía de Guanabara, o Corcovado, o Pão de Açúcar, as barcas fazendo a travessia até Niterói, os navios ancorados no cais, a pista do aeroporto Santos Dumont toda acesa - sempre na expectativa de algum grande pássaro prateado estar pousando ou alçando vôo - e as cidades Rio e Niterói acendendo ao longe, é tudo muito bonito.
Esse ônibus sai do Castelo, mas passa na rodoviária. Já haviam entrado quase todos os passageiros, e eu por enquanto ali, sozinho, tranqüilo, torcendo para que ninguém tivesse comprado a passagem número vinte, quando de repente, já ao apagar das luzes, entra Conchita e se senta ao meu lado. Dirigi o meu olhar pra ela, esbocei um leve sorriso, como “soi acontecer” com os encabulados e me preparei para cumprimentá-la, conforme manda a boa educação. Mas ela nem percebeu que eu estava ali. Como diria o Gonzagão: “ela nem fé deu”.
O ônibus lentamente começou a sair da rodoviária. Me encolhi no cantinho pra não incomodar Conchita, reclinei o banco e já estava me preparando para iniciar aquela soneca, quando pude observar Conchita colocar os óculos. Abriu a bolsa que estava no seu colo, apanhou o celular, digitou um número, colocou ao ouvido e aguardou alguns instantes olhando assim para lugar nenhum.
- Ester. Aqui é Conchita, como vai ?
Foi aí que eu descobri que o nome dela era Conchita. Aliás, nem sei se é assim que se escreve, mas acho que é. Trocaram algumas palavras, se despediram. Guardou o celular novamente na bolsa, tirou os óculos deixando-o nas mãos, se ajeitou na poltrona e deu a impressão de que, como eu, estava se preparando para entregar-se aos braços de Morfeu. Passaram-se alguns minutos e eu já estava quase cochilando, quando percebi aquela tremedeira na bolsa de Conchita. Ela rapidamente, procurou o dito cujo na bolsa, colocou novamente os óculos e atendeu.
- Alô. Sim. Oi, linda ! O quê ? passei ? tem certeza ? ai, meu Deus !!!
Esse “ai meu Deus” parecia mais um gol do flamengo no Maracanã. Imagine isso dentro de um ônibus. Foi um desacerto.
- Mas você tem certeza ? Passei mesmo ? Então à noite a gente se fala. Brigado linda. Valeu mesmo. Tchau. Beeeeeijo !!!
Daí pra frente vocês imaginem como é que foi a minha viagem. E só estávamos saindo do Rio.
Tentou ligar pra mãe duas vezes, não conseguiu. Ligou pra tia.
- Tia, é Conchita. Você não vai acreditar. Passei !! Avisa mamãe pra mim; não consigo falar com ela. Brigado. Tchau.
- Filhinha, passei querida. Graças a Deus.
- Márcia, passei. Agora a gente vai se ver todo dia. Beijo. Até amanhã.
De vez em quando eu dava uma olhadinha assim, de “rabo-de-olho”, e tava ela avidamente caçando um nome na agenda. Fulano, passei ! Beltrano, passei ! Cicrano, passei !!
Até agora não consegui descobrir em que foi que Conchita passou, mas tomara que seja um emprego e que pague bem, porque só pra pagar essa conta de celular, haja grana !
Esse ritual se repetiu até Cachoeiras de Macacu. Mas como Deus é Pai não é padrasto, pra minha alegria esses malditos celulares na serra não falam nem escutam e enquanto ele continuava surdo-mudo eu aproveitei pra finalmente tirar minha soneca e acho que Conchita também, pois ela ficou quietinha até Friburgo.
Uma das vantagens de se estar aposentado é que não se tem pressa mais para nada nessa vida. Pra vocês terem uma idéia, o meu próximo compromisso é pra daqui a seis meses, se não chover.
Finalmente o ônibus chegou na rodoviária, o motorista acendeu as luzes internas, esperei tranquilamente que os demais passageiros saíssem, apanhei minha bolsa no bagageiro e desci. Passei no banheiro, fiz um xixi pela módica quantia de um real e saí caminhando calmamente em direção ao ponto do outro ônibus que me levaria até a cidade, mas ainda a tempo de ver o táxi se afastando.
No banco de trás: Conchita. Sorriso nos lábios, um certo brilho no olhar, celular ao ouvido e uma imensa alegria na voz falando com mais um conhecido.
- Passei !!!

Friburgo, maio de 2005.




Prefácio

A sabedoria popular nos diz: a vida de um homem só está completa quando ele tem um filho, planta uma árvore e escreve um livro. Prá mim faltava o livro, para cumprir pelo menos, as tarefas básicas da minha presente existência.
Hoje a coisa mudou. Com a evolução tecnológica, cria-se um blog na internet, escreve-se algumas bobagens, coloca-se lá e tá resolvida a questão.
Pensei em alguém para prefaciá-lo, mas quem se proporia a cometer uma insanidade dessas. Convidei então minha filha Luciana(tá me devendo em Lu), ninguém melhor que ela, a minha grande incentivadora nessa empreitada.
São contos, histórias, comentários, idéias, intuições, lembranças que a minha memória guardou, aqui enfeixados, para que ao navegar através deles, recordemos fatos interessantes que aconteceram e também, para que nos induzam à reflexão e para que nos tragam alegrias.Isto posto, vamos ao que interessa.