segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Parabéns, Conchita!

Às vezes, vou ao Rio de ônibus. A gente vai ficando velho, vai perdendo a vontade de dirigir. E eu gosto de viajar de ônibus, mais tranqüilo, menos desgastante - esse trânsito tá um horror. Outra vantagem: ônibus têm conforto, espaço, ar condicionado, banheiro (a próstata agradece) e, o mais importante, eles são altos e com as janelas todas de vidro, dando uma visão panorâmica fantástica aos passageiros, que, como eu, gostam de viajar observando a paisagem.
Fui à cidade maravilhosa passar o final de semana com a moçada e voltei hoje para Friburgo. Peguei o ônibus no Castelo às dezesseis e quarenta, poltrona número dezenove (janela) e fui, para meu deleite, sem ninguém ao meu lado - até a rodoviária. Para quem é tímido e não gosta de falar muito, é gostoso viajar assim, sozinho na poltrona, à vontade, pensando na vida.
Apesar de o trajeto já ser bastante conhecido, o sol se pondo ao entardecer, quando o ônibus inicia a subida pelo elevado do Caju, é bonito; ver a ponte cortando a baía de Guanabara, o Corcovado, o Pão de Açúcar, as barcas fazendo a travessia até Niterói, os navios ancorados no cais, a pista do aeroporto Santos Dumont toda acesa - sempre na expectativa de algum grande pássaro prateado estar pousando ou alçando vôo - e as cidades Rio e Niterói acendendo ao longe, é tudo muito bonito.
Esse ônibus sai do Castelo, mas passa na rodoviária. Já haviam entrado quase todos os passageiros, e eu por enquanto ali, sozinho, tranqüilo, torcendo para que ninguém tivesse comprado a passagem número vinte, quando de repente, já ao apagar das luzes, entra Conchita e se senta ao meu lado. Dirigi o meu olhar pra ela, esbocei um leve sorriso, como “soi acontecer” com os encabulados e me preparei para cumprimentá-la, conforme manda a boa educação. Mas ela nem percebeu que eu estava ali. Como diria o Gonzagão: “ela nem fé deu”.
O ônibus lentamente começou a sair da rodoviária. Me encolhi no cantinho pra não incomodar Conchita, reclinei o banco e já estava me preparando para iniciar aquela soneca, quando pude observar Conchita colocar os óculos. Abriu a bolsa que estava no seu colo, apanhou o celular, digitou um número, colocou ao ouvido e aguardou alguns instantes olhando assim para lugar nenhum.
- Ester. Aqui é Conchita, como vai ?
Foi aí que eu descobri que o nome dela era Conchita. Aliás, nem sei se é assim que se escreve, mas acho que é. Trocaram algumas palavras, se despediram. Guardou o celular novamente na bolsa, tirou os óculos deixando-o nas mãos, se ajeitou na poltrona e deu a impressão de que, como eu, estava se preparando para entregar-se aos braços de Morfeu. Passaram-se alguns minutos e eu já estava quase cochilando, quando percebi aquela tremedeira na bolsa de Conchita. Ela rapidamente, procurou o dito cujo na bolsa, colocou novamente os óculos e atendeu.
- Alô. Sim. Oi, linda ! O quê ? passei ? tem certeza ? ai, meu Deus !!!
Esse “ai meu Deus” parecia mais um gol do flamengo no Maracanã. Imagine isso dentro de um ônibus. Foi um desacerto.
- Mas você tem certeza ? Passei mesmo ? Então à noite a gente se fala. Brigado linda. Valeu mesmo. Tchau. Beeeeeijo !!!
Daí pra frente vocês imaginem como é que foi a minha viagem. E só estávamos saindo do Rio.
Tentou ligar pra mãe duas vezes, não conseguiu. Ligou pra tia.
- Tia, é Conchita. Você não vai acreditar. Passei !! Avisa mamãe pra mim; não consigo falar com ela. Brigado. Tchau.
- Filhinha, passei querida. Graças a Deus.
- Márcia, passei. Agora a gente vai se ver todo dia. Beijo. Até amanhã.
De vez em quando eu dava uma olhadinha assim, de “rabo-de-olho”, e tava ela avidamente caçando um nome na agenda. Fulano, passei ! Beltrano, passei ! Cicrano, passei !!
Até agora não consegui descobrir em que foi que Conchita passou, mas tomara que seja um emprego e que pague bem, porque só pra pagar essa conta de celular, haja grana !
Esse ritual se repetiu até Cachoeiras de Macacu. Mas como Deus é Pai não é padrasto, pra minha alegria esses malditos celulares na serra não falam nem escutam e enquanto ele continuava surdo-mudo eu aproveitei pra finalmente tirar minha soneca e acho que Conchita também, pois ela ficou quietinha até Friburgo.
Uma das vantagens de se estar aposentado é que não se tem pressa mais para nada nessa vida. Pra vocês terem uma idéia, o meu próximo compromisso é pra daqui a seis meses, se não chover.
Finalmente o ônibus chegou na rodoviária, o motorista acendeu as luzes internas, esperei tranquilamente que os demais passageiros saíssem, apanhei minha bolsa no bagageiro e desci. Passei no banheiro, fiz um xixi pela módica quantia de um real e saí caminhando calmamente em direção ao ponto do outro ônibus que me levaria até a cidade, mas ainda a tempo de ver o táxi se afastando.
No banco de trás: Conchita. Sorriso nos lábios, um certo brilho no olhar, celular ao ouvido e uma imensa alegria na voz falando com mais um conhecido.
- Passei !!!

Friburgo, maio de 2005.




2 comentários:

  1. ADORO esse texto, muito bom! Eu não sei no que a Conchita passou, mas dá pra ficar feliz por ela!
    Um beijão, pai! Não esqueça do blog, continue postando!

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  2. ai, que curiosidade!!! viajo muito de onibus e fico pensando que seria ótimo proibirem celulares pois sempre fico sabendo de muito mais do que gostaria, além de não conseguir dormir! o celular tem isso né, a privacidade exposta! mas não posso mentir: tem vezes que gosto de ouvir histórias, rir de piadas alheias. O ruim é que por vezes perdemos o final da historia, ou partes dela como em que conchita passou! o bom é ficar imaginando!

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