sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O sagrado direito do voto

Era final de julho. Um frio danado como há muito tempo não fazia em Friburgo. Já era noite e eu estava na cozinha fazendo meu lanche - café, pão fresquinho com manteiga e queijo minas - e pensando na vida, com aquelas reflexões de um recém-aposentado: será que fiz bem em me aposentar ? sou muito velho pra trabalhar muito, mas sou muito novo pra trabalhar nada; todo mundo trabalhando e eu aqui à toa; arranjo emprego, não arranjo . . . quando a porta da cozinha abriu de repente. Era gordinha.
- Vou votar em Cacau Rezende ! - exclama ela, entrando esbaforida e arriando a bolsa junto à pia. Levei um susto e não entendi nada. Primeiro porque eu nunca tinha ouvido falar em Cacau Rezende e segundo porque o candidato dela era o Dr. Balbi. Trabalhou com ele quando era solteira, só vivia elogiando o seu trabalho e só votava nele em todas as eleições.
Chegou do salão àquela hora e enquanto preparava o jantar ia contando a história da velhinha, de quem havia cortado o cabelo e que a tinha convencido a votar em Cacau Rezende. Era a mãe dele. Velhinha esperta aquela, porque convencer um membro do clã dos “Oliveiras” a votar em seu filho, que era candidato a vereador, num curtíssimo tempo de um corte de cabelo ? Velhinha danada mesmo! Certamente possuidora de uma forte argumentação e um grande poder de persuadir as pessoas.
Durante os dois meses que precederam as eleições, o ouvido aqui do pobre cristão sofreu, com o nome do Cacau sendo exaltado, enaltecido e vangloriado periodicamente. E nesta época é praticamente impossível não se falar em candidatos e eleições. É horário eleitoral, é santinho pra todo lado, é carro de som na rua, é cara de candidato sorrindo pra você em todo lugar que você vai... enfim, não tem jeito, querendo ou não, você tem que participar.
E lá em casa não foi diferente. Saía assunto de eleição e lá vinha ela com Cacau Rezende. Vira e mexe e tome Cacau Rezende.
Mas Deus é pai, não é padrasto, e finalmente chegou o dia três de outubro de dois mil e quatro. Faltando uns quarenta minutos para encerrar o prazo de votação, passo pela varanda e vejo Gordinha, na posição que Napoleão perdeu a guerra, revirando a lata de lixo. Perguntei espantado:
- O que foi Gordinha. Tá procurando o quê ? E ela: - O santinho do Dr. Balbi. Aí perguntei mais assustado ainda:
- Ué, mas não era Cacau Rezende ? E ela de novo: - Minha consciência doeu. Vou votar no Dr. Balbi mesmo.
Pegou a bolsa, o santinho do Dr. Balbi no lixo, a sombrinha e saiu correndo, ladeira abaixo, para exercer o inalienável direito de todo cidadão de cumprir seu dever cívico e sufragar o seu voto.
Lá pela noitinha, chega ela, triste, cabisbaixa, com aquela cara de cachorro que quebrou panela.
- “Sacanás , anulei o meu voto. Também aquela porcaria de máquina!!!" Deixei passar um tempinho, esperei a moça acalmar e perguntei:
- Mas como é que você conseguiu anular seu voto, Gordinha? . É tão fácil aquela maquininha. Você chega, aparece logo aqueles cinco quadrinhos; você coloca o número do vereador, aparece a cara dele. Você confirma e pronto. Pra prefeito a mesma coisa.
- O quê? primeiro é vereador, pergunta ela arregalando os olhos. Eu votei primeiro prá prefeito. Aí, pensei cá com meus botões: porcaria de máquina, heim, fez foi lambança mesmo!
Final da história: Nem Cacau nem Dr. Balbi. Votou mesmo só pra prefeito. E ainda por cima perdeu o voto, porque votou em Renato.
Friburgo, outubro de 2004.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Par de jarras

Vinha eu outro dia, Alberto Braune abaixo, comendo as minhas goiabinhas, como diria o Stanislaw, quando deparei com um casal de mãos dadas, descendo à minha frente, um tanto o quanto diferente.
Explico porque: desciam à minha frente, na mesma direção, portanto, eu os olhava por trás. Diferente, porque pareciam do mesmo sexo, masculino. Não é que eu seja preconceituoso, mas o que chamou mais a minha atenção era o corte de cabelo. Aparentavam ter mais ou menos sessenta anos, ainda analisando de costas. Cabelos grisalhos, assim como os meus, e o mais interessante - tanto a cor dos cabelos quanto o corte eram idênticos. Certamente iam ao mesmo barbeiro a solicitavam o mesmo corte, assim como eu fazia com as crianças lá de casa quando eram pequenas. Coitada, a Luciana é que ficava no prejuízo. Mas era pra ganhar tempo, facilitar a vida do Degalino (o barbeiro) e ficar mais barato.
Continuei andando; estávamos mais ou menos com o mesmo passo, eu e o estranho casal, e de vez em quando eu dava uma discreta olhadinha. Vestiam calça comprida, umas camisas parecidas, um jeito semelhante de andar. Mas o que mais me impressionava era realmente o cabelo. Igualzinho !!!
Segui a minha trajetória em direção ao Banco do Brasil, onde iria pagar umas contas, me distraí e esqueci do intrigante casal. Mas o cabelo (lá deles) não me saía da cabeça. Igualzinho mesmo.
Paguei as minhas contas, e na volta, parei no “grão café” para saborear aquele delicioso café expresso e, qual não foi a minha surpresa, ao chegar e sentar à uma mesa, justamente na mesa em frente, o estranho casal, agora de frente. Só aí é que eu vi que não era um casal masculino, e sim um homem e uma mulher, e por sinal muito bonita e muito bem maquiada. Fiquei surpreso, porque raramente hoje em dia se vê uma senhora que não pinte os cabelos, quando estes começam a ficar brancos.
Enquanto sorvia o meu café, matutava com os meus botões. Quando chegar em casa, vou falar com Gordinha se ela não quer parar de pintar os cabelos e cortar igual ao meu. Ia ficar um casalzinho legal, igual àquele que me chamou tanto a atenção - e olha que eu sou meio distraído, não sou muito de reparar as coisas e as pessoas, não.
Cheguei em casa e fiz a proposta indecente. E ainda por cima levantei uma porção de argumentos pra justificar o meu pedido. Vocês não queiram imaginar a reação da patroa. A mulher ficou brava e saiu cuspindo marimbondo. Nunca mais toquei no assunto.
Mas que ia ficar um casalzinho maneiro, lá isso ia. . .


Friburgo, abril de 2009.

Terceira idade

Eu tenho um amigo, colega aposentado do Banco do Brasil, Mário Fróes, que tem uma classificação interessante para a velhice. Diz ele: dos sessenta aos setenta – terceira idade; dos setenta aos oitenta – quarta moléstia; e dos oitenta para cima – quinta dos infernos.
E ele não tá muito errado não. Eu por exemplo, não tô gostando nada de ficar velho. É complicado. Vou explicar , pra vocês entenderem direitinho.
Quando eu era jovem, por exemplo; trabalhava, estudava, dava um duro danado durante a semana, chegava sábado jogava “pelada” a tarde toda, ficava todo arrebentado, passava a noite em claro segurando criança gripada, domingo tirava uma soneca à tarde, segunda-feira de manhã tava novinho para trabalhar novamente.
Agora, depois que a gente faz cinqüenta anos, primeira decepção: tive que pendurar a minha chuteira - é triste, viu ? Veja bem: a cabeça sabe o que fazer, mas o corpo já não responde como antigamente. E eu tenho um nome a zelar, não posso fazer igual ao Romário fazendo vergonha depois de velho. Melhor parar. Mas o pior são as doenças; não tenho nada grave, graças a Deus, mas em compensação tudo o que não é grave, eu estou adquirindo. Quer ver só ?
Próstata aumentada: já estou a quase dez anos nessa agonia. O médico diz: nada pra se preocupar, por enquanto. Mas não se esqueça, exame rigorosamente de seis em seis meses, e lá vou eu. Hérnia de disco: vou ao ortopedista, pede os exames, manda para o fisioterapeuta, volto ao ortopedista, melhorou ? quanto ? sessenta por cento. Volto para o fisioterapeuta, e lá vou eu de novo. E não sai disso.
E tem mais: herpes, labirintite, alergia respiratória – que eu peguei na obra lá do centro. O pneumologista disse: não é nada grave, diminui só um pouquinho a capacidade pulmonar, mas não se esqueça, de seis em seis meses você volta aqui prá gente fazer o acompanhamento. Varizes, colesterol alto, enxaqueca, nervo ciático. Essas são as que eu tô lembrando agora enquanto escrevo isto.
E os médicos recomendam: evite gordura, açúcar, café, chocolate, coca-cola, massas, um chopinho bem gelado com colarinho. É mole ??? Eles nunca mandam evitar jiló, berinjela, espinafre.
E o pior de tudo isso é o seguinte: quando a gente é jovem, as doenças vêm e vão embora daqui a pouco, mas quando a gente vai ficando velho, elas vêm e não vão embora nunca mais. E você tem que aprender a administrar isso.
Portanto, meus amigos, evitem ficar velhos.

Parabéns, Conchita!

Às vezes, vou ao Rio de ônibus. A gente vai ficando velho, vai perdendo a vontade de dirigir. E eu gosto de viajar de ônibus, mais tranqüilo, menos desgastante - esse trânsito tá um horror. Outra vantagem: ônibus têm conforto, espaço, ar condicionado, banheiro (a próstata agradece) e, o mais importante, eles são altos e com as janelas todas de vidro, dando uma visão panorâmica fantástica aos passageiros, que, como eu, gostam de viajar observando a paisagem.
Fui à cidade maravilhosa passar o final de semana com a moçada e voltei hoje para Friburgo. Peguei o ônibus no Castelo às dezesseis e quarenta, poltrona número dezenove (janela) e fui, para meu deleite, sem ninguém ao meu lado - até a rodoviária. Para quem é tímido e não gosta de falar muito, é gostoso viajar assim, sozinho na poltrona, à vontade, pensando na vida.
Apesar de o trajeto já ser bastante conhecido, o sol se pondo ao entardecer, quando o ônibus inicia a subida pelo elevado do Caju, é bonito; ver a ponte cortando a baía de Guanabara, o Corcovado, o Pão de Açúcar, as barcas fazendo a travessia até Niterói, os navios ancorados no cais, a pista do aeroporto Santos Dumont toda acesa - sempre na expectativa de algum grande pássaro prateado estar pousando ou alçando vôo - e as cidades Rio e Niterói acendendo ao longe, é tudo muito bonito.
Esse ônibus sai do Castelo, mas passa na rodoviária. Já haviam entrado quase todos os passageiros, e eu por enquanto ali, sozinho, tranqüilo, torcendo para que ninguém tivesse comprado a passagem número vinte, quando de repente, já ao apagar das luzes, entra Conchita e se senta ao meu lado. Dirigi o meu olhar pra ela, esbocei um leve sorriso, como “soi acontecer” com os encabulados e me preparei para cumprimentá-la, conforme manda a boa educação. Mas ela nem percebeu que eu estava ali. Como diria o Gonzagão: “ela nem fé deu”.
O ônibus lentamente começou a sair da rodoviária. Me encolhi no cantinho pra não incomodar Conchita, reclinei o banco e já estava me preparando para iniciar aquela soneca, quando pude observar Conchita colocar os óculos. Abriu a bolsa que estava no seu colo, apanhou o celular, digitou um número, colocou ao ouvido e aguardou alguns instantes olhando assim para lugar nenhum.
- Ester. Aqui é Conchita, como vai ?
Foi aí que eu descobri que o nome dela era Conchita. Aliás, nem sei se é assim que se escreve, mas acho que é. Trocaram algumas palavras, se despediram. Guardou o celular novamente na bolsa, tirou os óculos deixando-o nas mãos, se ajeitou na poltrona e deu a impressão de que, como eu, estava se preparando para entregar-se aos braços de Morfeu. Passaram-se alguns minutos e eu já estava quase cochilando, quando percebi aquela tremedeira na bolsa de Conchita. Ela rapidamente, procurou o dito cujo na bolsa, colocou novamente os óculos e atendeu.
- Alô. Sim. Oi, linda ! O quê ? passei ? tem certeza ? ai, meu Deus !!!
Esse “ai meu Deus” parecia mais um gol do flamengo no Maracanã. Imagine isso dentro de um ônibus. Foi um desacerto.
- Mas você tem certeza ? Passei mesmo ? Então à noite a gente se fala. Brigado linda. Valeu mesmo. Tchau. Beeeeeijo !!!
Daí pra frente vocês imaginem como é que foi a minha viagem. E só estávamos saindo do Rio.
Tentou ligar pra mãe duas vezes, não conseguiu. Ligou pra tia.
- Tia, é Conchita. Você não vai acreditar. Passei !! Avisa mamãe pra mim; não consigo falar com ela. Brigado. Tchau.
- Filhinha, passei querida. Graças a Deus.
- Márcia, passei. Agora a gente vai se ver todo dia. Beijo. Até amanhã.
De vez em quando eu dava uma olhadinha assim, de “rabo-de-olho”, e tava ela avidamente caçando um nome na agenda. Fulano, passei ! Beltrano, passei ! Cicrano, passei !!
Até agora não consegui descobrir em que foi que Conchita passou, mas tomara que seja um emprego e que pague bem, porque só pra pagar essa conta de celular, haja grana !
Esse ritual se repetiu até Cachoeiras de Macacu. Mas como Deus é Pai não é padrasto, pra minha alegria esses malditos celulares na serra não falam nem escutam e enquanto ele continuava surdo-mudo eu aproveitei pra finalmente tirar minha soneca e acho que Conchita também, pois ela ficou quietinha até Friburgo.
Uma das vantagens de se estar aposentado é que não se tem pressa mais para nada nessa vida. Pra vocês terem uma idéia, o meu próximo compromisso é pra daqui a seis meses, se não chover.
Finalmente o ônibus chegou na rodoviária, o motorista acendeu as luzes internas, esperei tranquilamente que os demais passageiros saíssem, apanhei minha bolsa no bagageiro e desci. Passei no banheiro, fiz um xixi pela módica quantia de um real e saí caminhando calmamente em direção ao ponto do outro ônibus que me levaria até a cidade, mas ainda a tempo de ver o táxi se afastando.
No banco de trás: Conchita. Sorriso nos lábios, um certo brilho no olhar, celular ao ouvido e uma imensa alegria na voz falando com mais um conhecido.
- Passei !!!

Friburgo, maio de 2005.




Prefácio

A sabedoria popular nos diz: a vida de um homem só está completa quando ele tem um filho, planta uma árvore e escreve um livro. Prá mim faltava o livro, para cumprir pelo menos, as tarefas básicas da minha presente existência.
Hoje a coisa mudou. Com a evolução tecnológica, cria-se um blog na internet, escreve-se algumas bobagens, coloca-se lá e tá resolvida a questão.
Pensei em alguém para prefaciá-lo, mas quem se proporia a cometer uma insanidade dessas. Convidei então minha filha Luciana(tá me devendo em Lu), ninguém melhor que ela, a minha grande incentivadora nessa empreitada.
São contos, histórias, comentários, idéias, intuições, lembranças que a minha memória guardou, aqui enfeixados, para que ao navegar através deles, recordemos fatos interessantes que aconteceram e também, para que nos induzam à reflexão e para que nos tragam alegrias.Isto posto, vamos ao que interessa.